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BPP

Poema

11/06/2019

Deriva

Adriana Lisboa

1
   Fotos: David Lupton

PALPITE

Diante do poema
engasgado neste pulso
o coração não sabe
se o seu palpite
vale um verso
ou se é mero sofisma
ou se afinal de contas
o vivo é que é o verbo
              sugerido
de antemão

DESMAPA

Por um tempo
habitar um não-tempo
(o que ainda há a mapear?
e que interesse há       convenhamos
em que saber que chão é este?)

por um instante
não tentar desatar estes
nós        cegos
os meus (ou serão teus?) dedos
no emaranhado do acaso
numa dobra de um tempo-não.

 

2

VAU

                               para Rafael Gallo

É pelo vau que se atravessa
o rio
exatamente ali onde o rio
é menos rio
ali onde ele fraqueja
arrisca correr a um palmo
do chão
é pelo vau que se entende
o rio
que se percebe que ele não
é sempre
corredeira e fundo
é pelo vau que se ganha o rio
          e no entanto
o que é o vau se não o mesmo
rio
água afluxo tempo

— às vezes a gente se dá conta
de que é pelo rio
que atravessa o vau.

ANO NOVO

Tampouco isto me pertence mas então o quê
mas então que raso que rota que rum
que rumba que onda que rechaço
que mar endiabrado que orixá eriçado
que rumo que passo que crença

a não ser esta dos dois rapazes
que se beijam ao meu lado?

VELHO VARRENDO A CALÇADA EM HAVANA

O chiado da palha da vassoura
e os ruídos de fundo              um motor
de ônibus ao longe um cachorro um espirro
          que importam somente para sagrar
solista
ator principal
o velho que varre a calçada
rachada tranquila em Havana
nesta manhã em que nada
se dissipa em metáfora.

1

TUDO PASSA

Pois então é mesmo verdade o clichê
            tudo passa
passa o ônibus gordo de turistas
passa enrodilhado o vento que vem do mar
passa o cachorro mancando de uma pata
passa o pincel na parede da escola o rapaz
trepado na escada
meio cai-não-cai
nesta esquina onde já vimos passar tanta água
passa outra manhã veja você           duas horas já
passa despercebido o que não
está na lista do poema
como também
passamos e quase sem querer
cumprimos à risca o refrão
que nos cabe no clichê.

 

Adriana Lisboa é escritora. Tem mais de dez títulos lançados, nos gêneros romance, conto, poesia e infantojuvenil. O material apresentado nesta edição da Helena integra Deriva, livro desenvolvido em colaboração com o fotógrafo neozelandês David Lupton e que tem publicação programada para junho deste ano.

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