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BPP

Reportagem

11/06/2019

Curitiba em film frame

Nem tudo o que foi produzido na cidade desde que o cinema é cinema está disponível para pesquisa, mas é possível encontrar documentos preciosos nos acervos públicos e particulares

Katia Michelle
Fotos: Joel Rocha

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   A passagem do Zeppelin por Curitiba, em 1936, foi registrada em filme por João Baptista Groff, pioneiro do cinema paranaense. Foto: Reprodução

Por dentro e por fora do grande Zeppelin, as imagens mostram uma Curitiba congelada no tempo. O registro é de um passado não tão recente, com cenas que capturam desde tomadas aéreas do balão dirigível vistas do chão até os prédios que resistem e ajudam a contar a história da cidade, vistos do alto como se filmadas por um drone pré-histórico. A Catedral, a Casa Hoffmann e o prédio dos Correios, para citar alguns ícones arquitetônicos, surgem chapiscados em preto e branco não como fantasmas, mas como prova da passagem inexorável do tempo. A cidade foi viva. A cidade está viva.

As cenas fazem parte do curta-metragem silencioso Zeppelin em Curitiba, produzido em 1936 por João Baptista Groff. O filme traz um dos registros oficiais mais antigos da cidade ainda existente. Leva a assinatura de Groff, aliás, a maior parte das imagens filmadas na cidade nas primeiras décadas do século XX. Morto em junho de 1970, aos 73 anos, o fotógrafo e cineasta registrou desde paisagens e cenários arquitetônicos do Paraná até o cotidiano da capital, com algumas manifestações políticas e outras idiossincrasias. Cenas que contribuem intrinsecamente para montar o quebra-cabeça da História.

Pois as imagens em movimento são assim. Ainda que guardem a visão de mundo de quem está ou esteve atrás das câmeras, mostram uma quase pura realidade com valor inestimável. Groff foi uma das principais figuras que registraram essa narrativa filmada de Curitiba. Ao lado de seu veterano e também cineasta Annibal Requião (1875-1929), produziu um material de valor inestimável. A maior parte, porém, foi consumida pelo tempo e pelo fogo.

“As imagens em movimento mais preciosas de Curitiba foram perdidas no incêndio da Cinemateca Brasileira. Tudo que foi filmado de importante até a década de 1950 era altamente inflamável”, conta o cineasta e pesquisador Fernando Severo, em referência ao único suporte que existia na época para as filmagens: o nitrato de celulose.

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   Valêncio Xavier (entre os cineastas Pedro Merege e Beto Carminatti): o criador da Cinemateca de Curitiba também dirigiu diversos curtas que tinham como pano de fundo a cidade.. Foto: Acervo Fundação Cultural de Curitiba

O Zepellin em Curitiba, com as imagens descritas acima, no entanto, resiste no acervo da Cinemateca Brasileira. Outros títulos igualmente históricos do cineasta também podem ser encontrados no acervo, como Silhuetas paranaenses, que mostra imagens datadas de 1919 e perto disso, Miss Paraná (1928) e O Dia do Paraná (1931), reportagem que mostra os festejos realizados em Curitiba, em comemoração à data da emancipação política do Estado, para citar alguns.

Já os filmes do patrono do cinema do Paraná, Annibal Requião, tio-vô do ex-senador com mesmo sobrenome, não tiveram imensa sorte. Quase todo o acervo dele, doado pela família à Cinemateca, foi destruído, restando apenas dois títulos: Pannorama de Curityba (1909) e o Carnaval em Curityba (1910).

Localizada em São Paulo, a Cinemateca Brasileira guarda o maior e mais antigo acervo de filmes nacionais. Porém, quatro grandes incêndios ao longo da sua história — desde que foi fundada, em 1940 — apagaram grande parte dessa memória. “Uma perda irrecuperável”, reforça Severo, membro da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual.

Foi o primeiro incêndio registrado pela instituição, em 1957, que levou a maioria do acervo de Groff e Requião, e ainda causou a destruição de boa parte das instalações do local, único até então no Brasil supostamente capacitado para guardar filmes em suporte de nitrato de celulose. Outros incêndios voltariam a acontecer: em 1969, quando mais de 2 mil filmes se perderam, em 1982 e em fevereiro de 2016, quando a instituição anunciou a perda de 1.007 rolos de filmes, sendo 731 títulos originais.

“As pessoas têm uma impressão errônea de que as coisas vão ficar para sempre. Na verdade, elas se perdem muito facilmente e por isso é tão importante que as políticas públicas ajudem a preservar o material que registra as cidades”, diz Severo, que esteve na direção do Museu da Imagem e do Som do Paraná (MIS-PR) entre 2011 e 2015.

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   Marcos Sabóia, cineasta e responsável pelo acervo da Cinemateca de Curitiba: “O cinema tem essa função bem forte de revelar nossa identidade. E é bom que as pessoas tenham essa consciência na hora de fazer um filme”


MEMÓRIA DE CURITIBA
Diretor, entre outros filmes, do premiado Corpos celestes (2009), Severo passeia pela cena cinematográfica de Curitiba desde a década de 1970, quando começou a produzir curtas-metragens. Editor, roteirista, produtor e acima de tudo um estudioso do cinema, ele fala com propriedade desse cenário que circunda a capital paranaense.

Mas, afinal, o que sobrou para as novas gerações pesquisarem de toda essa memória em movimento registrada em Curitiba desde que o cinema é cinema? “Pouca coisa ainda existe em acervo, seja na Cinemateca Brasileira, na Cinemateca de Curitiba ou no MIS-PR. Muita coisa se perdeu, mas grande parte uma pessoa conseguiu resgatar e tem grande relevância para a história do cinema em Curitiba”, responde o cineasta.

A pessoa em questão é Valêncio Xavier (1933-2008). Foi ele, ao lado de Francisco Alves dos Santos, o responsável por criar a Cinemateca de Curitiba, ligada à Fundação Cultural de Curitiba, e que até hoje guarda a maior parte do acervo cinematográfico da cidade.

A fundação da Cinemateca de Curitiba, em 1975, foi apenas parte do trabalho de Valêncio, que não se limitava quando o assunto era resgatar a memória em movimento da cidade. “Até hoje o trabalho dele é insuperável. Ele conseguiu prospectar e recuperar grande parte do que foi filmado na cidade”, conta Severo.

Além disso, o cineasta e escritor nascido em São Paulo, mas radicado em Curitiba, dirigiu diversos curtas-metragens que tinham como pano de fundo a capital paranaense e servem como pesquisa obrigatória para quem quer mergulhar no acervo em movimento da cidade.

O curta de pouco mais de 11 minutos Caro signore Fellini, também conhecido como Carta a Fellini, é prova disso. Foi realizado sob encomenda do então prefeito de Curitiba Jaime Lerner, em 1979, sob o pretexto de convidar o cineasta italiano Federico Fellini para conhecer a capital. Traz uma versão bastante peculiar de Curitiba, que chegava à década de 1980 ostentando, mesmo que na ficção de Xavier, o título de “a mais bela cidade do mundo”.

A produção ganhou o prêmio de Melhor Filme de Ficção na IX Jornada de Curta Metragem, em 1980, e pode ser encontrada no YouTube. Não há notícias de que Fellini teria visitado a cidade por conta dele. Mas é notório afirmar que o curta abre espaço para uma série de produções que começaram a ser filmadas em território leite-quente.

“Não se filmou muito no Paraná até as décadas de 1980, 1990. Até surgir a Lei de Incentivo (a Lei Municipal de Incentivo à Cultura, promulgada em novembro de 1991), a produção cinematográfica era muito esparsa. Do que foi feito no início do século muita coisa se perdeu. E não apenas no incêndio da Cinemateca. Esse tipo de produção se deteriora quando não é conservada corretamente. Perdem emulsão, se desbotam, se perdem com o tempo”, constata Fernando Severo.

Ele afirma que todos os filmes que mostram a cidade, independentemente da sua qualidade artística, têm um valor que aumenta a cada dia. “Vira um documento antropológico, sociológico. A partir dele podemos fazer várias leituras que no futuro terão significado. A fotografia consegue retratar parte dessa transformação, mas ela não dá conta. Precisamos de imagem em movimento, precisamos de som”, conclui.

 

FUTURO SILENCIOSO
Mas a realidade prega peças. Principalmente se a memória não for prioridade. “Perdemos 86% do material que foi filmado no período silencioso do cinema”, conta Marcos Sabóia, responsável pelo acervo da Cinemateca de Curitiba e também cineasta. “E estamos falando do acervo do mundo todo.” Segundo ele, tragédias como o incêndio da Cinemateca Brasileira são perdas irreparáveis para a memória do cinema brasileiro, que hoje as instituições tentam evitar.

Atualmente, a Cinemateca de Curitiba tem em seu acervo quase 3 mil registros em película e digital, incluindo os históricos filmes de João Groff e Annibal Requião, mas principalmente da memória mais recente do que foi filmado em Curitiba — uma produção que soma quase 7 mil títulos. “Os filmes locais são obrigatoriamente depositados na Cinemateca”, conta Sabóia, lembrando que a instituição é a terceira em acervo do País, ficando atrás apenas das cinematecas de São Paulo e Rio de Janeiro.

“Uma das principais demandas é registrar esse material de forma técnica para que todo mundo possa acessar”, diz. E há verdadeiras pérolas no acervo. Um dos materiais de referência citado por Sabóia é o documentário de média-metragem No lixo do Canal 4, de Yanco Del Pino, que reproduz trechos de filmes encontrados no lixo do Canal 4 de Curitiba e retrata imagens da sociedade curitibana, idealizada ou não.

“O cinema tem essa função bem forte de revelar nossa identidade. E é bom que as pessoas tenham essa consciência na hora de fazer um filme’’, constata. Para ele, se essa identidade está presente em um filme, mesmo que de ficção, o material se transforma em um documentário de época, capaz de mostrar a geografia, a arquitetura, o comportamento das pessoas e revelar uma comunidade, uma cidade, um País. “Por isso, o material audiovisual é tão rico”, cita.

O material encontrado no lixo atualmente integra o acervo do Museu da Imagem e do Som do Paraná. São mais de 10 mil filmetes de telejornal, em 16mm. O acervo do MIS é guardado em uma reserva técnica e pode ser acessado pelo público, desde que agendado com antecedência.

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   Fernando Severo, cineasta e pesquisador: “As pessoas têm uma impressão errônea de que as coisas vão ficar para sempre. Na verdade, elas se perdem muito facilmente e por isso é tão importante que as políticas públicas ajudem a preservar o material que registra as cidades”.


PRESENTE EM FOTOGRAMA
Fazer com que o material produzido — hoje com facilidade imensurável se comparado a poucas décadas — seja preservado é um dilema tecnológico que precisa ser resolvido.

Professora de Cultura da Preservação no curso de Cinema da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), Solange Stecz salienta que a questão é discutida internacionalmente, inclusive pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Parte do acervo cinematográfico do Paraná, aliás, foi recentemente protegido quando passou a integrar, no fim de 2018, o Programa Memória do Mundo da Unesco, do qual Solange é representante. Trata-se do material captado por Vladimir Kozák entre os anos de 1948 e 1978, período em que o fotógrafo e cinegrafista produziu várias filmagens para o Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), entre elas um documentário sobre os índios Xetá, desconhecidos até então.

Menos conhecido que seus contemporâneos Requião e Groff, Kozák nasceu em 1897, na Áustria. Mudou-se para o Brasil na década de 1920 e em 1928 passou a morar em Curitiba, contribuindo para registrar um estado até então desconhecido.

“O cinema tem esse fascínio de permitir que cada um dê o seu olhar particular de uma situação, de uma cidade’’, analisa Solange. Para ela, assim, como Groff, Requião e Kozák, as gerações de cineastas que vieram a seguir — e as que estão surgindo — se prevalecem quando existe uma sistematização do material produzido.


MEMÓRIA RECENTE
Olhando para um passado mais recente, Solange cita alguns títulos e cineastas que foram e são tão importantes quanto a primeira leva de profissionais que registraram a cidade. Como Sylvio Back, com sua ampla produção realizada na cidade. Autor de quase 40 títulos, Back dirigiu o premiado Lance maior, ambientado em Curitiba na década de 1960.

Com Regina Duarte e Reginaldo Farias no elenco, o filme completou 50 anos em 2018 e, apesar de ser uma obra de ficção, retrata o modus operandi de uma cidade tão efervescente quanto o autor da obra.

De lá para cá, diversos cineastas locais passaram a chamar a atenção do Brasil (e do mundo) para a identidade da cidade. O cineasta Elói Pires Ferreira, por exemplo, dirigiu o curta Vamos junto comer defunto (1990), retratando um peculiar bairro de Curitiba ambientado em 1965, cujos moradores interrompem suas atividades para assistir a um enterro. É dele também Curitiba zero grau, longa vencedor do prêmio do público no Cinesul — Festival Latino-Americano de Cinema e Vídeo e selecionado para o Festival de Havana de 2011.

Quem acompanha a produção feita a partir da década de 1980 em Curitiba vai esbarrar em nomes como Estevan Silveira e suas obras baseadas em contos de Dalton Trevisan, escritor ícone da capital paranaense. Silveira também trabalhou com Beto Carminatti no curta Balada do Vampiro, lançado em 2007 e um dos raros filmes feitos com autorização do autor.

É inegável que Curitiba tanto serviu de cenário para uma importante obra cinematográfica como serve de inspiração para profissionais ávidos por captar imagens que continuam fazendo história, ficcionais ou não. Preservar essas obras, portanto, é tão importante quanto produzi-las.

“É fundamental preservar a imagem em movimento e também tudo aquilo que a envolve’’, enfatiza a pesquisadora em cinema e professora Solange Stecz. “Como os cineastas profissionais e amadores podem fazer isso? Migrando a tecnologia. Ou seja, seguir mudando de tecnologia a cada formato novo que surge.” Ela explica que esse processo implica em preservar o hardware (elemento físico), o software (elemento lógico) e o suporte (elemento de armazenamento). “A questão da preservação digital é um desafio para o século XXI’’, salienta.

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   No início dos anos 2000, o Projeto Olho Vivo, aberto à comunidade, produziu mais de 30 filmes ambientados em Curitiba. Foto: Acervo Projeto Olho Vivo
Olho vivo
A tecnologia nos faz ter motivos para comemorar — e lamentar — todos os dias, mas para o meio audiovisual é — quase sempre — motivo de celebração. Nunca foi tão fácil filmar como nas últimas décadas, mas nenhum registro faz muito sentido se não for organizado e passível de ser mostrado. Foi para organizar as ideias de centenas de pessoas que tinham alguma afinidade com as imagens em movimento que surgiu, no início dos anos 2000, em Curitiba, o Projeto Olho Vivo.
Coordenada por Luciano Coelho e Marcelo Munhoz, a iniciativa aberta à comunidade começou com oficinas audiovisuais e aos poucos foi se convertendo em um celeiro de produção, conforme lembra Munhoz. “Foram realizados mais de 30 filmes entre documentário e ficção, mas principalmente documentários’’, lembra.
Parte dessa produção faz parte da Coleção Olho Vivo, uma caixa de DVDs que reúne 20 documentários produzidos pelo projeto — que vigorou até 2012 — e forma um material bruto fundamental para a memória da cidade. No entanto, a maior parte desse conteúdo não existe mais. “Quando o projeto acabou, tínhamos pilhas e pilhas de fitas que guardávamos em um arquivo, mas isso foi jogado fora”, admite Munhoz. Ele explica que o descarte é normal em produções cinematográficas, principalmente quando se fala em documentário.
“Em geral, quando se trabalha com documentários, se produz muito material gravado. Na época trabalhávamos com fitas, que é um suporte que não utilizamos mais hoje, por isso acabamos descartando o material e isso é natural”, conta. Parte desse conteúdo, no entanto, está disponível no site de vídeos Vimeo. “É um acervo que tem muito mais a ver com a realidade da cidade do que a idealização dessa realidade. Além disso, o projeto serviu como ponto de início, passagem e formação para muita gente que está fazendo cinema hoje”, diz. Para ele, não há dúvidas de que isso é parte importante do acervo audiovisual da cidade. “Não são imagens 100% isentas porque o cinema sempre traz o olhar de quem produz, mas é um material que tem valor histórico na medida em que faz um retrato da cidade, com coisas que estavam acontecendo na época’’, acredita.
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   Regina Duarte e Reginaldo Faria em cena de Lance maior (1968), filme de Sylvio Back rodado em Curitiba. Foto: Divulgação
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   Rua XV de Novembro, no centro de Curitiba, em 1928. Foto: Reprodução / Acervo Paulo José da Costa
Memória particular
Além do acervo sistematizado e guardado nos órgãos públicos, também é preciso voltar os olhos para coleções particulares. E nenhuma chama tanta atenção quanto a do livreiro aficionado por imagens Paulo José da Costa. Além de colecionar, por conta própria, milhares de fotografias antigas (ele é hoje o dono do maior — em número e importância histórica — acervo fotográfico particular da cidade), também guarda centenas de filmes que retratam Curitiba.
São mais de 300 documentos, boa parte deles disponibilizada em seu canal no YouTube, mas muitos guardados em seu arquivo e que nunca sequer foram vistos, pois não há suporte para reprodução. Entre eles, O mundo mágico de Poty, curta de 10 minutos em 35 mm com direção de Arakén Távora, música de Egberto Gismonti e narração de Jardel Filho. Um exemplar original de grande valor histórico.
Costa detém um acervo de imagens datadas desde 1920, muitas delas repassadas pacientemente para a plataforma mais democrática de visualização, a internet, mas sem uma catalogação sistemática. Ele guarda o material em caixas de isopor espalhadas em três salas particulares. O que consegue digitalizar, posta nas redes sociais, principalmente em seus blogs e na página do Facebook “Antigamente em Curitiba”, que já reúne quase 10 mil postagens de fotos e vídeos da cidade.
O futuro do acervo particular que ele mantém a sete chaves é um enigma. “Não sei o que fazer ainda. Provavelmente vou doar ou vender para uma instituição particular’’, diz, lamentando a falta de interesse das pessoas em preservar a memória. “Isso deveria ser ensinado na escola.’’

 

Katia Michelle é jornalista, com passagens por veículos como O Estado do Paraná e Folha de Londrina. Atualmente é editora na Gazeta do Povo.

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