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BPP

Ensaio

10/01/2019

A minha própria bíblia

Do I-Ching a Millôr Fernandes, de Michel de Montaigne a Nelson Rodrigues, uma investigação pessoal sobre um gênero que atravessa os séculos: o aforismo 

Christian Schwartz

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Ilustrações: Benett

Eu poderia dizer, porque há duas décadas e meia ganho meu sustento com ela, que sempre soube o valor da palavra. Se tivesse, porém, de contar minha história de leitor, começaria por uma frase — não por uma, específica e literalmente, mas pelo potencial de significado que uma frase pode conter; pelo tamanho simbólico de certas frases, em particular. Eu poderia dizer que desde cedo entendi — parafraseando o título da breve história do aforismo que nos conduzirá neste ensaio, tão habilmente contada pelo jornalista e escritor americano James Geary — que numa frase pode caber o mundo inteiro.

Estas breves memórias de leitor remontam a um tempo em que, como toda criança, eu era ainda um leitor de textos breves: aquelas primeiras frases que se consegue ler — sejam elas “sagradas”, como versículos da Bíblia decorados nas aulas de catequese ou frases / provérbios / adágios edificantes e “sábios”; sejam “profanas”, ditos espirituosos / chistes / tiradas, a punchline de uma piada marota, quem sabe? Até que (talvez antes passando pela poesia, uns versos soltos que ficam na memória) se chegue aos aforismos, cuja própria história, como gênero, se confunde — veremos — com essa espécie de passagem do sagrado ao profano, ou ao mundano, que percorri da infância à juventude, e da qual ficaram frases soltas, aqui lembradas de cabeça, tantos anos depois:
 

Não vos preocupeis pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo; basta a cada dia o seu mal.

Mas você não morre / você é duro, José!

Descarga em banheiro público, só com o cotovelo.

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã / porque na verdade não há. Lá em casa tem um poço / mas a água é muita limpa.

Se Deus me der saúde, hei de provar que Ele não existe.

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Como se vê, o que me conformava, leitor em formação, era uma pequena miscelânea daquilo que um de meus hoje aforistas prediletos, o jornalista e ensaísta Karl Kraus, de extração germânica (nascido na Boêmia, atual República Tcheca, mas atuante na Viena do entreguerras), definiu assim: “O aforismo jamais coincide com a verdade; ou é uma meia verdade ou uma verdade e meia”.

Para Mark Twain, por sua vez, o que caracteriza essas breves e memoráveis assertivas é a fórmula aparentemente simples de “um mínimo de som para um máximo de sentido”. (Twain é o autor de uma dessas que, embora lamentavelmente não tenha sido uma descoberta de infância, inspiraram em mim a saudável rebeldia própria da forma aforística: “Nunca deixei que a escola interferisse na minha educação”, vaticinou certa vez o escritor americano.)

Em seu O mundo em uma frase: uma breve história do aforismo, James Geary enumera algumas características do gênero: aforismos são “frases curtas e insólitas”; “vigorosas, imponentes, inspiradas e ligeiramente oraculares”; engraçadas, também, embora seus temas frequentemente envolvam “algum tipo de tragédia pessoal”; muitas vezes fazem uso de jogos de palavras, paradoxos e torneios inteligentes, acrescenta o autor. O toque mordaz foi o que, particularmente, sempre me atraiu, em especial quando o aforista se autocongratula por sua excelência no gênero: “Há escritores que já conseguem dizer em 20 páginas aquilo para o que às vezes preciso de até duas linhas”, escreveu Karl Kraus.

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“Me espantava como uma declaração tão concisa podia conter tanto sentido. Ler uma citação realmente boa de ‘Entre aspas’ era como olhar em um caleidoscópio”, conta Geary sobre suas incursões à seção de frases da revista Seleções (Reader’s Digest) que os pais assinavam.

Ele então passou a colecionar frases no verso de um pôster de George Harrison — “aquele de All things must pass, em que [Harrison] está com um grande chapéu de aba mole e parece muito hirsuto”— e, quando ali não cabiam mais suas anotações, saíram da parede os de David Bowie e Pink Floyd. Se ousasse ter feito o mesmo com o meu dos Beatles encartado com o vinil do Álbum branco — até hoje uma de minhas relíquias de juventude mais preciosas, intacta na capa do disco tão amado desde os 13 anos —, quem sabe eu tivesse mais do que algumas frases de memória para recitar.

Mas, na modesta seleção das primeiras letras cuja intimidade há pouco revelei, fica evidente o arco percorrido: da meia verdade à verdade e meia de Kraus, o percurso talvez não tenha sido cronológico. Tampouco as frases que me formaram leitor se qualificam todas em igual medida como aforismos: de fato, tecnicamente falando, só é aforística a última — uma tirada de Millôr Fernandes cuja fonte exata se perdeu, certo dia recitada em voz alta e tom divertido por um amigo de faculdade, o que me espantou e indignou, pois àquela altura eu era ainda uma alma pia e fervorosamente devotada aos versos místicos de Renato Russo, facilmente reconhecíveis no meu pequeno museu de frases.

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O que a mim mesmo surpreende é a gravidade do versículo bíblico que figura como a citação mais antiga da lista, um vaticínio extraído do evangelho de Mateus, se a memória não me trai: por que estranhos caminhos vinha provocar, no menino catequizado e crismado que fui, uns arrepios de temor e respeito a desígnios maiores, forças espirituais contra as quais não adiantaria lutar? Ao mesmo tempo, é dessa época a descoberta do verso de Drummond: “você não morre, você é duro” — uma afirmação de resistência pessoal que anos mais tarde ganharia contornos definitivos com dois outros célebres versos drummondianos, aqueles que falam em lutar com palavras mal rompe a manhã. Mas não com as palavras utilitárias, e francamente insossas, de certo “manual de instruções para a vida” que, circulando na casa da infância, versava sobre banheiros públicos.

Ironicamente, na mesma casa um dia apareceu, talvez por descuido paterno, a coletânea O melhor do mau humor, organizada e traduzida por Ruy Castro — tenho o exemplar até hoje, ao passo que o livrinho de dicas práticas para uma existência sem percalços nem micróbios foi deixado de lado quando resolvi que, como no adágio popular (um dos únicos que conheço com algum valor de sabedoria), a vida não devia mesmo vir com manual de instruções. Decidi o que queria ser quando preferi o poeta ao vendedor de conselhos, e mesmo ao profeta: de um versículo bíblico sobre ser apaziguado do temor pelo futuro resignando-me ao mal nosso de todo dia, vim parar no aforismo “blasfemo” de Millôr que dizia aceitar a fé — desde que fosse para me fechar o corpo e abrir a mente. Aquele “hei de provar” — um chamado à investigação, a viver pela inteligência, a questionar o absoluto — fez minha cabeça. Literalmente.

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Com isso, e arriscando uma aproximação entre dois gêneros literários, já posso enunciar minha própria definição de aforismo: é essa espécie de ensaio a conta-gotas, cheio de humor e veneno.

Vale retomar aqui as definições mais corriqueiras da palavra “ensaio” à época do francês Michel de Montaigne, primeiro grande cultor moderno deste que é também um gênero da minha predileção: ao “ensaiar”, o sujeito “lida com dois níveis de coisas, com dois lados: numa mão, a realidade desconhecida — o pedaço de metal, o suposto ouro, ou o fato novo, o fato desconhecido, o desafio à inteligência; na outra, um paradigma, a realidade conhecida”. A explicação é de Luís Augusto Fischer, numa passagem da ótima genealogia do tema que realiza no livro Inteligência com dor, e que o autor conclui, ele próprio, em nota aforística: “Quem ensaia testa o que está numa mão em relação com o que está na outra”.

Pode-se até chamar isso de ciência. “Mas com Montaigne de fato a coisa mudou”, lembra o mesmo Fischer. “Para dar vazão a seu ímpeto, a seu modo de pensar, ele precisou enfrentar o limite conhecido, forjando um texto híbrido de reflexão moral, divagação, conselhos, exibicionismo, erudição clássica e algo mais.”

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O curioso é que, depois do francês Montaigne, autor da segunda metade do século XVI, o ensaio passou a ser coisa para inglês ver — ou melhor, para inglês escrever. Conforme observam vários estudiosos do tema, o gênero atravessou o Canal da Mancha para só retornar a Paris já em pleno século XVIII, pelas mãos de Voltaire. Enquanto isso, nas ilhas britânicas, sucederam-se gerações de ensaístas clássicos: Francis Bacon (ainda contemporâneo de Montaigne), Samuel Johnson e, já no século XIX, outro Samuel, Coleridge — para não falar dos contemporâneos do outro lado do Atlântico: os americanos Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, entre outros.

Não terá sido mera coincidência que todos os citados, sem exceção, fossem grandes aforistas além de ensaístas.

Mas a história é bem anterior a Montaigne: começa com as obras de sabedoria, num tempo em que sua compilação era, primeiro, oral. “Os aforismos são os oráculos originais”, ensina James Geary. “Eles se desenvolveram numa época em que os livros eram extremamente raros e só uma elite instruída sabia ler e escrever. Os aforismos se expandiram porque eram acessíveis a todos; a brevidade, a agudeza e o uso de imagens os tornavam divertidos de lembrar e impossíveis de esquecer.” Só passam à forma escrita — e logo literária — com os gregos estoicos.

Daí o autor de O mundo em uma frase apontar o pioneirismo do I-Ching: “É com esse texto secular que começa a história do aforismo”, conta Geary. (Se voltar agora às minha memórias de juventude, verei um quarto alugado de solteiro, minha primeira casa fora da casa dos pais, a mobília reduzida a um colchão no chão e uma lâmpada de leitura ao lado, e era ali, madrugada adentro, que eu alternava “consultas” ao I-Ching e passagens aleatórias do Livro do desassossego, de Fernando Pessoa — ambos os volumes então à cabeceira do leitor em formação.)

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Geary elenca, em seguida, os cinco requisitos para que o aforismo possa bem cumprir essa sua função de fonte de sabedoria, ou sua “tarefa oracular”, na expressão do próprio autor. Para além da brevidade — “a alma da inteligência”, já observava Shakespeare num de seus muitos achados aforísticos próprios —, o aforismo, segundo Geary, precisa ser definitivo. Nesse aspecto, diferentes dos ensaístas, os aforistas “afirmam em vez de discutir, proclamam em vez de persuadir, declaram em vez de sugerir; para falar por aforismos, é preciso estar convencido das próprias opiniões e não hesitar em declará-las”. Ainda na visão de Geary: “(...) os aforistas estão longe de ser inofensivos. Eles são encrenqueiros e iconoclastas, dogmatistas cuja autoridade majestosa exige aprovação. São, por definição, revolucionários que consideram suas verdades evidentes por si mesmas”.

Por outro lado, por ser pessoal (terceiro requisito), o aforismo se distancia dos provérbios e adágios — estes, para Geary, não passariam de “aforismos batidos, cuja identidade do autor original se perdeu com o uso repetido” — para se reaproximar do ensaio. Aforismos nada têm a ver com generalizações brandas sobre a vida e o universo; ao contrário, como afirmou certa vez o jovem Bacon: “Os aforismos, por representarem um conhecimento fragmentado, convidam realmente os homens a indagar mais”.

Quarta lei aforística: apresentar uma guinada. O aforismo tem algo ao mesmo tempo de piada — a conclusão que causa surpresa — e mágica; é como assistir a um truque, compara Geary: primeiro tem a surpresa, depois vem o encantamento para, enfim, a gente se perguntar como o mágico fez aquilo.

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“Aforismos”, resume O mundo em uma frase, “não são as frases vagas e cordiais encontradas em cartões de saudações. São muito mais abruptos, confrontadores e subversivos. (...) tampouco se destinam a fazer alguém se sentir bem consigo mesmo. Em geral, são céticos e amargos, um antídoto para as panaceias brandas e tenazmente otimistas dos manuais de autoajuda e literatura inspiradora. Decididamente, eles não alegram. Os aforismos aplicam o choque agudo e breve de uma velha verdade esquecida”.

Não é por outra razão que, como quinto requisito, James Geary defende que o aforismo deve ser filosófico. No seu caso particular, uma frase descoberta ainda na adolescência se tornou algo como uma verdadeira filosofia de vida. O autor da citação — Gerald Burrill, bispo episcopal de Chicago — não chegou a ser uma celebridade literária, mas produziu esta joia: “A única diferença entre pegar sempre o mesmo caminho e cavar a própria cova é a profundidade do buraco”.

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“É uma frase arrepiante — uma advertência clara de que a inércia é inimiga da alegria, de que o trabalho entediante cria hábito”, comenta Geary. Mas a frase tem uma segunda leitura, mais profunda, a da metáfora sobre o rumo que se toma na vida — eis aí, aliás, o tema filosófico por excelência. “É a mais antiga jornada conhecida — do nascimento para a morte, de si mesmo para o mundo, do conhecido para o desconhecido”, lembra Geary. “[Os aforismos] insistem para prosseguirmos no caminho, [e] para evitarmos as trilhas rotineiras. (...) Mantêm a nossa mente em forma levando-nos a nos perguntar, toda manhã, se estamos simplesmente indo para o trabalho ou cavando a própria sepultura.”

Certa vez, falando desses pequenos grandes achados literários, Ralph Waldo Emerson, outro contumaz colecionador deles, aconselhou: “Faça sua própria bíblia”. Millôr Fernandes deixou a sua, muito apropriadamente intitulada... A bíblia do caos. Calculei que já não era sem tempo começar eu mesmo a compilar um compêndio das lições irreverentes que carrego vida afora. Esse meu livro, a seu modo, sagrado — enfim! — talvez pudesse começar pela própria frase “blasfema” de Millôr que me arrancou do conforto doméstico e meio carola da infância.

Mas, como nenhuma frase é uma ilha, se me permitem a paráfrase de um (por óbvio) aforismo dos mais célebres, prefiro que a minha própria bíblia comece aqui — e nas palavras de outros profetas e oráculos do coração espalhados ao longo deste ensaio — com uma sutil e irônica variação sobre a frase de Millôr Fernandes:

A vida não é tão ruim assim, desde que você tenha sorte, saúde e pouca imaginação. — Christopher Isherwood, escritor inglês.

Deus, por exemplo: só existe na sua cabeça. Hei de provar.


Christian Schwartz é jornalista, tradutor e doutor em História Social (Universidade de São Paulo / Cambridge).AFORISMOS

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AFORISMOS

Ambrose Bierce

História, s.f. Um relato, quase todo falso, de eventos, quase todos sem importância, provocados por governantes, quase todos uns velhacos, e soldados, quase todos uns patetas.

Revolução, s.f. Em política, uma mudança abrupta na forma de desgoverno.

Santo, s.m. Segunda edição revista de um pavoroso pecador.


Oscar Wilde
“Toda pessoa que diz sempre a verdade acaba sendo apanhada em flagrante.”

“Uma verdade deixa de ser verdade quando mais de uma pessoa acredita nela.”

“Todos estamos na lama, mas alguns sabem ver as estrelas.”


Karl Kraus
“Se acha que pode tornar as pessoas piores do que já são, o diabo é um otimista.”

“O segredo do demagogo é se fazer passar por tão estúpido quanto sua plateia, para que esta imagine ser tão esperta quanto ele.”


H.L. Mencken
“O homem é o único animal que se devota diariamente a tornar os outros infelizes. É uma arte como outra qualquer. Seus virtuoses são chamados de altruístas.”

“O cristão vive jurando que nunca fará aquilo de novo. O homem civilizado apenas resolve que será mais cuidadoso da próxima vez.”

“A Igreja é um lugar onde senhores que nunca estiveram no Céu dizem maravilhas a respeito dele para pessoas que nunca irão para lá.”

“O culto dominical é uma prisão na qual as crianças cumprem pena pela consciência culpada de seus pais.”

“Pode ser um pecado pensar mal dos outros. Mas raramente será um engano.”

“Imoralidade é a moralidade daqueles que estão se divertindo mais do que nós.”
 

George Bernard Shaw
“A virtude não passa de tentação insuficiente.”


Ralph Waldo Emerson
“Uma seita ou partido político é apenas um eufemismo elegante para poupar um homem do vexame de pensar.”


Oswald de Andrade
“O sacerdócio é o ócio consagrado aos deuses.”

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Nelson Rodrigues
“O casamento já é indissolúvel na véspera.”

“Num casal há sempre um infiel. É preciso trair para não ser traído.”

“A plateia só é respeitosa quando não está entendendo nada.”

 

Stanislaw Ponte Preta
“Política tem esta desvantagem: de vez em quando, o sujeito vai preso em nome da liberdade.”

“Os valores morais são os únicos que conservaram os preços de antigamente.”

 

Millôr Fernandes
“É bom não esquecer que o inventor do alfabeto foi um analfabeto.”

“A Academia Brasileira de Letras se compõe de 39 membros e um morto rotativo.”

“Um desses livros que quando você larga não consegue mais pegar.”


Paulo Francis
“A ignorância é nosso grande patrimônio nacional.”


de autor anônimo
“Um conservador é alguém que admira os radicais — cem anos depois que eles morreram.”

“Um diplomata é um sujeito que pensa duas vezes antes de não dizer nada.”

“A monogamia deixa muito a desejar.”

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