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Conto

07/01/2019

Princípios da expressão

Luci Collin

1
Ilustrações: Visca

Sr. Barlett:

— Ora essa, que maçada! Visitar-me-á às 10:00, exatamente. Foi-se uma manhã de trabalho. Algo inconveniente esse senhor que marcou a entrevista justo hoje. Como é mesmo seu nome? Charles. Como devo chamá-lo? Professor? Doutor? Uma manhã esplêndida desperdiçada com conversações digamos... prescindíveis. Por que não desenvolve, ele mesmo, seu método e prática de observação? E terei que convidá-lo para o almoço, naturalmente. Vai-se assim também boa parte da tarde! Não me recordo do sobrenome. Anotado está no bloco azul, contudo. Garwin, creio. Será Barwing? Bem, solicitarei a Edwina que mo recorde. Em nada me agrada esse tipo de intervenção — toda e qualquer interferência em minha relação com os animaizinhos me traz enorme desapontamento; que estopada! Perco muito do meu precioso tempo. Haverá alguém, além de mim, na face da Terra, que sinta maior amor por essas criaturinhas adoráveis? Desde a mais tenra juventude sou um aficionado, um venerador, um amante da arte de observá-las. Reino: Animalia. Filo: Chordata. Classe: Mammalia. Ordem: Carnívora. Família: Hyaenidae. O sonoro nomezinho delas vem do grego hyaina, através do latim hyaena.

Tem muito tipo demais, coisera de livro!

Ô benditinho, para de reclamar e estuda pra essa prova! Quer ficar igual a eu mais teu pai?

Mas é bicho demais pra decorar! Pediu o conteúdo deisdo começo, aquela porre de professora.

Olha a língua! Desaforado! E tira já já esse RISINHO da cara! Vai cantar o chinelo nessa casa é agorinha mesmo!

(Pro Valdo ela nunca fala de chinelo. E o pai num rela um dedo naquele lazarento. A pequena eles mima que dá até nojo. “Olha, Vilnor, a menina tá juntando as letra já, bem certinho!” Grandiscoisa. E roupa pra Sarinha é toda semana que a mãe faz, e o pai traz guloseira da rua, a guria parece uma reizinha aqui. Só eu que eles vinga toda a raiva no meu couro. Pra que saber essas chatice de filo classe ordem bosta? Garanto que nem aquela Dona Suzele xarope sabe esses troço).

2

“Um movimento similar de conexão entre o traseiro e o rabo pode ser observado na hiena. O sr. Barlett relatou-me que quando dois desses animais lutam, eles têm consciência do incrível poder das mandíbulas um do outro, e são extremamente cuidadosos. Bem sabem que se uma de suas patas for agarrada, o osso será instantaneamente despedaçado.” DARWIN, C. A expressão das emoções no homem e nos animais.

Sr. Sutton:

— Olha, se existe sorte na vida eu tive. Esse professor esquisito costuma vir aqui toda quinta-feira. Por uns tempos andou sumido, viajando, ele viaja muito pelo mundo. Mas então, ontem era quinta e ele apareceu e começou a me fazer uma infinidade de perguntas. Eu não sabia quase nada, mas não deixei que ele percebesse, inventei uma porção de fatos sobre os bichos, como reagiam, como era a alimentação, que tipo de som eles fazem de acordo com o estímulo. Para usar de sinceridade eu ando meio farto desse serviço. Ficar olhando os macacos e anotando os movimentos nessas folhas imensas. Ah, as mesmas coisas todo dia. E que importância isso tem? Se o rabo vira para a esquerda quando veem fruta, se o rabo abaixa quando estão com sono? Que cara fazem quando algum deles espirra? Ah, está bom, não reclama! Melhor que trabalhar nas minas. Ou naquele emprego odioso na tipografia. E eu tiro é uns bons cochilos lá na casinha do observatório. Ainda mais que a madrugada de quarta para quinta eu passei na mesa de jogo. Estava era morto de sono. Aí o professor chega e eu, logo de início, cometo uma gafe: “Como vai, feliz em revê-lo professor Walter!” É Charles, ele corrigiu. Então o lance de sorte: no meio das perguntas ele pediu detalhes sobre como fica o rosto do rhesus se ele estiver com raiva. Olha, eu não tinha a menor ideia, mas eu afirmei com toda a pompa, feito um especialista: vai mudando para o vermelho aos poucos. E não há de ver que nessa hora ele assiste a uma cena bem assim? Por Santa Hilda de Whitby! Me safei mesmo de uma reprimenda. Já imaginou se o professor reporta aos meus superiores indícios de descaso profissional de minha parte?

“O sr. Sutton viu diversas vezes a face do Macacus rhesus, quando muito enfurecido, ficar vermelha. Enquanto ele me contava isso, um macaco atacou o rhesus e eu pude ver seu rosto enrubescer tão claramente como o de um homem sob violenta emoção. Alguns minutos depois da briga, o rosto desse macaco recuperou a sua cor natural.” (DARWIN, idem)

(O Tico anda muito desrespeitoso com a mãe. Não considera que ela tem a coisa dos nervo. Ele responde atravessado, ela fica VERMELHA de ira. Eu não. Faço nos conforme e nunca levei coça. E custa estudar as lição que a professora manda? Eu quero ter melhor futuro. Queria ser da Marinha, mas isso a mãe não ia deixar. O pai talvez deixava. Faço rente as tarefa, levo os lápis já apontado pra não se enrolar, finco o olho nos livro e copio é tudo do quadro, nem que fique com o pulso doendo. E nunca deixei de fazer os trabalho em cartolina. E essa matéria dos mamífero é facinha, nem sei do que ele chia tanto. Depois fala que a mãe protege eu mais a Sarinha, que ele sofre porque é o do meio. É isso não. Ele é folgado. Não estuda e aí leva fubecada, só pode. Se mete em briga. Cospe. Eu que salvei a pele dele aquele dia na encrenca do gude. Mas nunca dedei ele pro pai. Nem vou. Não quero ver a mãe na gritaceira. O Tico ia levar uma tunda pavorenta. E mais a Sarinha chorando junto, deusmelivre, que mulher faz escarcéu por tudo! O pai concorda nisso. Ouvi ele falar bem isso na venda com o Seu Ozir.)

O meu Osvaldo só tira pra cima de 9. E precisa de ver a letra, que caprichenta! A professora, ele tá com a Dona Leide esse ano, ela foi dos teus? Então, ela disse que ele pode chegar até a trabalhar ne banco algum dia, pegar serviço famoso. Se ele zelar na dedicação. Cabeça, tem. Uma bênção verdadeira filho assim. Pra compensar o do meio, é, o Tico.

3

Dr. Duchenne:

— Como suportar!? Esta manhã no desjejum Everild Philberta anunciou-me que espera mais um bebê! Infelizmente essas evidências me fazem constatar que escolhi errado a mulher para esposa. Esta tem uma fertilidade descontrolada, o que não me permite uma prática sexual efetiva e saudável, como conviria a um casal. Há sempre a sombra de um possível bebê. Sofro privações. São 11 filhos. E eu já disse a ela para se cuidar, tomar as precauções necessárias! Ela é, no frigir dos ovos, uma inconsequente, pois não avalia quão dispendioso torna-se a manutenção de tantos rebentos. Felizmente 3 deles não vingaram ou seriam, hoje, 14! Talvez se eu tivesse escolhido a irmã mais velha dela, Velma Edmonda, estivéssemos numa conta mais equilibrada. Bem, Deus sabe o que faz, enfim, e tenho uma compensação na vida: meu excelente trabalho cuja remuneração me permite manter tamanha família. Enquanto o Professor seguir solicitando meus serviços de minuciosa observação e detalhamento, tudo permanecerá suportável. Devo esmerar-me em dobro. Por sorte é interessantíssimo o tema do movimento das sobrancelhas. E que Deus proteja o Professor Charles.

(A vó sempre fala: Não vai mexer com o que tá quieto! Eu não tinha nada que cutucar a santinha. Ah, como é que ia saber que não era de madeira nem de ferro mas daquele negócio branco esfarelento! Trincou um braço e o outro quebrou mesmo. Pensei de colar com cola-tudo mas vai que a mãe chega bem na hora. Vai que um adulto vê que fui eu! Ai, tô tremendo do susto até agora. Vai que colo o braço torto e fica pior. Mas que desgracida de santinha, também, escorregativa que nossa! Vou largar o bracinho ali do lado e quem achar que decida. Vai que passam a capelinha adiante e nem reparam. Fica assim.)

Mas quem me explica já isso?! Ai, que desonra! Tico, demônio de piá, como é que foi destruir a imagem da Virgem? Ainda mais da Virgem!. Dá até um pretejamento nas vista de nervura. Deixa só o teu pai saber! Dessa vez não vou esconder é nadica do Vilnor! Quero contar essa barbaridade é completinho. E o Padre Celson vai ficar sabendo também. Eu quero que o teu pai te desforre e na base do relho, seu capeta! Piá desajustoso! Que que eu fiz, Senhor, pra ter merecimento de um filho medonhento desses? Não dá nem de ir um minutinho prosear na vizinha Dona Celize que o praga já apronta. Ainda mais o bracinho, meu Deus! Que fazia o abençoamento com a mão.

4

“Nunca fui capaz de perceber se as sobrancelhas de macacos espantados permaneciam erguidas, apesar de mexerem-se incessantemente para cima e para baixo. A atenção, que precede o espanto, é expressa pelo homem com um discreto levantar das sobrancelhas; e o Dr. Duchenne relatou-me que quando dava ao macaco anteriormente mencionado algum alimento novo, este elevava levemente as sobrancelhas, adquirindo assim uma aparência de grande atenção.” (DARWIN, idem)

Ai Ozir, tô que num aguento! É duas semana que a Delsa fica fora. Vai na mãe dela em Cornélio Procópio e depois ainda chega na madrinha em Nova Fátima. Tá dificultoso demais sem ela aqui! O peito por dentro tá que é pura consumição.

Não é caso de desespero, Vilnor! Tu tem a tua mulher em casa, pra quebrar um galho.

Ih, Ozir, você não atina das coisa, homem. A Delsa é carinhosinha, mulher pra mais de metro. Quando quer uma coisa só levanta a SOMBRANCELHA assim ó, e tá passado o recado. Já aquilo que eu tenho em casa é parente de quero-quero. É barulho por qualquer coisa! Fez um forrobodó porque trincaram o braço da estatuinha da santa. E eu com isso?

Ói que descobrem que tu mantém outra e vai ser uma fiasqueira. Não lembra do Adauri?

Se descobriam eu pulava na mesma hora pra casa da Delsa. Só não largo a jararaca por causa da menina. A Sarinha é o que me segura. Já tirei na prestação a luvinha de renda pra ela. Da primeira comunhão. Vamo até assar uma carninha lá em casa. Fora esse domingo, no outro.

 

Luci Collin é escritora, tradutora e professora universitária. Publicou, entre outros livros, Querer falar, A palavra algo, Nossa Senhora D’Aqui e A peça intocada.

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