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Crônica

07/01/2019

Couve para Mark Sandman

Paulo Krauss

O sujeito esquisito entrou no restaurante. Camisa social velha, sem grife, meio amassada, bermuda e... sapato preto. Achei o cara estranho, mas cumpri o ritual gentil do serviço americano. Depois de quase cinco anos trabalhando nos Estados Unidos, pouco importava quem era o freguês. Eu odiava o emprego, mas fazia da melhor maneira possível.

Ele não foi simpático, mas polido, apesar da voz cavernosa. Pediu almoço e guaraná. Era uma churrascaria brasileira a poucas quadras da Universidade de Harvard. De dia, servíamos alguns itens no buffet e três pedaços de carne assada. Rodízio, somente à noite. Eu entrei como barman noturno, mas logo virei gerente e passei a trabalhar também no lunch, no mês em que conheci Mark.

Pouco antes de ele acabar de comer, o dono do restaurante chegou. Cumprimentou-o com entusiasmo. Conversou algum tempo com Mark e me chamou num canto. “Não cobro dele. É músico. Eu fui músico, vida difícil.”

O tal Mark vinha almoçar umas duas vezes por semana. Um dia apareceu para jantar com uma amiga e tomou caipirinha. Quando eu disse que não ia cobrar, ele recusou. Queria pagar, só aceitava a cortesia no almoço, sozinho.

Na semana seguinte começamos a conversar mais. Ele contou que tinha morado alguns meses no Rio, onde trabalhou de pedreiro, e que era fã do Brasil e de nossa música. Sabia um pouco de português, vocabulário limitado, mas uma fala correta. Disse que adorava comer ali, que vinha pouco à noite porque tocava e que gostava mesmo era de couve. “Pena que vocês não servem no lunch.”

Fui à cozinha e pedi para a tiazinha de Minas fazer um pouco de couve na frigideira. Pedi com a maior educação possível, mas já esperava a resposta: “Não, couve só à noite”, ralhou, ao lado de uma baciada de couve já cortada para o jantar.

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Ilustração: Guilherme Caldas

Fiz eu mesmo, enquanto a tia esbravejava, no melhor estilo brazuca-ilegal-dos-restaurantes-de-Boston. Os olhos de Mark brilharam quando coloquei a travessa no balcão. Na vez seguinte em que apareceu, abriu um sorriso e disse em português: “Paulo, faz couve para mim, por favor”.

Não vou dizer que ficamos grandes amigos. O assunto de Mark era música brasileira e o meu, esportes americanos, então nossa afinidade ficou limitada. Mas a collard greens nos aproximou, até porque também adoro couve. Aos poucos fomos trocando nossas histórias e desenvolvemos uma relação de simpatia e admiração.

O ano era 1992 e Mark tocava no bar da esquina, o Plough and the Stars, um pub irlandês velhinho, mas animado. Não era o endereço mais concorrido da região, que tinha o House of Blues, de Dan Akroyd, e o MiddleEast, onde Mark também tocava. Eu frequentava mais o House of Blues, por causa das mulheres jovens e bonitas.

Não entendo de música, mas fiquei impressionado quando ouvi Mark pela primeira vez. Roqueiro dos bons, com seu estilo completamente original, que ele chamava de low rock. Arrebentava no baixo de duas cordas que ele mesmo fez. Apesar de tocar num cantinho do bar, para não mais que 40 pessoas nas noites de segunda, era vibrante, performático, parecia que estava num palco cantando para milhares.

Logo Mark me trouxe o CD de seu novo grupo, o Morphine, do qual era líder, vocalista, baixista, compositor e gerente geral. O álbum, chamado Good, era excelente. Disse a Mark que ele era muito bom, mas nunca imaginei que Sandman cresceria tanto. Nosso contato durou menos de um ano. Em dezembro, cansei da vida no balcão, marquei passagem e em duas semanas estava no Brasil. Não encontrei Mark antes de vir embora. Não trocamos endereço, não nos vimos nem nos falamos mais. Não havia e-mail nem Facebook naquela época.

Em 1999, soube que o Morphine seria uma das atrações do Free Jazz Festival, no Rio. Seria bom ver Mark, tentar falar com ele. Provavelmente eu não teria feito nada disso, sou muito ruim na manutenção de amigos. De qualquer maneira, o plano não vingaria. Pouco antes de voltar ao Brasil que admirava, Mark teve um infarto fulminante no palco, em Palestrina, na Itália, aos 46 anos.

De vez em quando ouço suas músicas e penso em como fui um idiota de nem lhe pedir um autógrafo na capa de Good, que poderia ter sido um amigo melhor, mas é tarde demais. Além disso, a vida de Mark Sandman foi um furacão antes e depois de criar o Morphine, e eu seria apenas o barman brasileiro que lhe preparava couve com carinho. Espero que alguém tenha feito couve na minha ausência, porque ele realmente gostava muito.

 

Paulo Krauss é jornalista. Escreveu o livro Fedato, o estampilla rubia.

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