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10/01/2019

Estudos para um rosto simples

De Curitiba para as ruas do mundo: o minimalismo policromático de Rimon Guimarães 

Mariana Sanchez

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Fotos: Elisandro Dalcin

Uma casa abandonada no subúrbio de Turim. O muro de um barracão no litoral da Gâmbia. A fachada do Tic-Tac Art Center em Bruxelas. A empena de um prédio em Minsk, na Bielorrússia. Um portão de ferro na Rua São Francisco, no Centro de Curitiba. Sobre estas superfícies, tão díspares e distantes, correram os sprays, rolos e pincéis de Rimon Guimarães, um dos nomes mais festejados da street art mundial na atualidade. 

Nascido em janeiro de 1988 no bairro do Portão, hoje ele passa mais tempo viajando do que em Curitiba, onde mantém seu pequeno apartamento-ateliê num prédio antigo do Batel. Mas o mapa da cidade natal cor-de-chuva segue tatuado na memória, com as cores da infância e adolescência, de quando a atravessava, de cabo a rabo, colando pôsteres lambe-lambe e grafitando seus muros. “Era uma forma de extrapolar os limites de casa, conhecer o bairro, descobrir o Centro e ir mapeando a cidade a pé ou de ônibus. Em 2002, a arte de rua era mais criminalizada e perigosa do que hoje, envolvia muita tensão e adrenalina, não se ganhava dinheiro algum — pelo contrário, só se gastava”, lembra Rimon, que cansou de ser abordado pela polícia e levado à delegacia. “Mas sempre dava um jeito de conversar e sair ‘de boa’, sem ficar preso”, conta.

Os primeiros experimentos em desenho resumiam-se a copiar traços do Homem-Aranha e do Goku, personagem do mangá Dragon Ball, que venerava. Os gibis eram comprados com a comissão dos penais e bolsas costurados pela mãe, que ele vendia de porta em porta com o irmão mais velho. “Meu pai estava desempregado e com a grana daquelas vendas minha mãe ia ao mercado e fazia nosso rango. Hoje eu transformo tinta e spray em obras de arte, e com elas posso pagar meu aluguel. Mas essa noção de ganhar dinheiro com algo feito criativamente eu aprendi com a minha mãe”, diz.

Aos 11 anos, Rimon já frequentava rodas grafiteiras, mas era tímido, o nariz enfiado no caderno, sempre desenhando. “A galera dividia em quatro uma folha sulfite, cada um desenhava numa parte, depois se xerocava, recortava e saía para colar perto da escola. Um dia sobrou um quadrante e lembraram que eu desenhava uns personagens, foi assim que tudo começou”, recorda. Naquela época, Rimon já não desenhava mais Goku e Homem-Aranha. No grafite, originalidade é exigência, “Quem copia não se cria”, verseja, e aos poucos as formas do mangá foram evoluindo até chegar à figura humana estilizada que hoje define seu trabalho — a princípio forjada na relação com seu próprio corpo negro, masculino, magro, alongado; hoje mais feminino, embora um tanto andrógino, quase indistinto. Mais do que evolução, trata-se de um sofisticado processo de involução, retrocedência: ao folhear os cadernos de Rimon acumulados ao longo dos anos, nota-se a busca constante pela simplificação da face, a redução de elementos. O descomplicar para sofisticar, como predicava o velho aforismo de Leonardo da Vinci.

“Fui explorando intuitivamente as formas do rosto humano a partir de diferentes ângulos, até desenvolver meu estilo próprio. No estudo de História da Arte, vi que essa simplificação já estava presente nas culturas indígena, egípcia, chinesa, celta, africana. Nas artes essenciais e primitivas. Não é uma coisa superminha, não me acho um cara originalzão”, defende-se, modesto. Mais do que reconhecer a influência da arte europeia (especificamente a tríade Klee, Picasso e Miró), prefere recorrer à suas fontes originais, às pinturas orientais e máscaras africanas, aos antigos desenhos botânicos.

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O trabalho de Rimon nasce de um curioso paradoxo visual: embora trabalhe sobre a base dura, fria e reta do concreto urbano, suas formas são naturais, orgânicas, sinuosas. A mestiçagem inventiva e harmoniosa de sua paleta cromática à base de spray e tinta acrílica é outra de suas marcas, mas a construção dessa linguagem se deu aos poucos, à medida que foi conquistando clientes e maiores orçamentos. “No início, meus desenhos eram em preto e branco, só depois foi entrando o vermelho, o azul. Agora posso comprar tintas de todas as cores, não preciso me limitar”, festeja, definindo o paredão que pintou para a rede de restaurantes Madero, em Itajaí, como “120 metros quadrados de multicromia intuitiva”.

 

DRAGON BALL
Autodidata, considera a rua e os quadrinhos suas primeiras escolas. Dos tempos no colégio Bagozzi, conserva o gosto pelas aulas de artes e lembra das notas baixas em quase todo o resto. Na sexta série conheceu Luan Banzai, de quem até hoje é parceiro. “Eu era nerd, baixinho e de cabelo comprido. Ele era alto, parecia um maloqueiro, sentava no fundão. Nossa amizade se construiu a partir desses contrastes e porque éramos fãs de Dragon Ball. Adorávamos esse lance de guerreiro ninja que voa e solta poderes com as mãos”, lembra o videomaker e sócio do estúdio Banzai.

“CDF” em Matemática, Luan passava cola e fazia as tarefas de Rimon, até que um dia sentaram juntos para estudar a disciplina. “Peguei o caderno dele e ali estavam os exercícios, só que de repente as contas eram tomadas por desenhos e os personagens devoravam os números, o problema virava outra coisa. Então eu disse: ‘Mano, teu negócio é mesmo desenhar, esquece a Matemática, deixa que eu resolvo essa parada’.”

No Colégio Estadual do Paraná, quando não estava na quadra jogando basquete, Rimon se enfurnava na sala de educação artística, onde teve contato com técnicas como gravura, pintura e escultura. Lá, participou de seu primeiro salão de arte. Eram tempos em que a internet começava a chegar às casas da classe média brasileira, e numa daquelas madrugadas silenciosas de conexão discada, Rimon soube de um salão em Maringá. Mandou um tríptico em tela, foi selecionado e, em pouco tempo, viu a carreira artística deslanchar profissionalmente. Tinha apenas 16 anos, mas já estava conectado à cena global da street art através de seu fotolog — hoje, sua conta no Instagram tem quase 40 mil seguidores —, e logo começaria os estudos de pintura na faculdade de Belas Artes.

Rimon trabalhava, expunha, participava ativamente de um circuito artístico em expansão, e os exercícios acadêmicos de pintura lhe pareciam uma perda de tempo. Crítico à escola eurocêntrica que pautava o curso, um ano depois decidiu prestar novo vestibular, agora para gravura, experiência que durou apenas mais um ano. Convidado a expor no Santander Cultural, em Porto Alegre, perdeu duas semanas de aula e não teve as faltas abonadas pelos professores. Foi a deixa para abandonar de vez a faculdade. “Mas absorvi as técnicas de pintura e gravura, as noções de perspectiva, sombra e volume que aprendi nas aulas de desenho de observação”, reconhece.

Passou então a frequentar os ateliês de gravura do Solar do Barão, onde fez seus primeiros experimentos em serigrafia — ia até o Boqueirão comprar camisetas lisas para estampar (“Sempre na base do faça você mesmo que tive em casa”, conta). Também adquiriu bons livros e aprofundou sua formação autodidata, aprendendo sozinho a situar sua produção dentro das teorias da arte contemporânea.

Mas não totalmente sozinho: o trabalho coletivo sempre marcou a trajetória de Rimon. No colégio estadual Pedro Macedo, integrava o bando dos Periculosos Crew, com quem produzia e colava “lambes” pela cidade. Depois juntou-se ao coletivo Interlux Arte Livre, em que artistas visuais, videomakers, filósofos e criadores das mais diversas disciplinas desenvolviam performances e intervenções artísticas em Curitiba. Paralelamente, associou-se à Banzai, estúdio independente de design e vídeo onde fazia trabalhos de ilustração e videoanimação para a publicidade ao lado de Fernando Nogari, Thales Banzai e do amigo de infância Luan.

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Um trabalho nas páginas impressas da revista da MTV abriu portas para o estúdio produzir vinhetas e filmes promocionais para o canal, levando Rimon a pintar a fachada de seu prédio em São Paulo e projetar ainda mais a Banzai — que chegou a criar para Nike, Google, Itaú e Macy’s, a maior loja de departamentos dos EUA. “Sempre senti a necessidade de trabalhar em grupo, tentando tirar essa mística do ego, do artista intocável, individualista. Gosto de ver como outras cabeças trabalham e assim entender melhor quem sou a partir desse encontro”, diz.

Desde 2013, Rimon assina trabalhos em dupla com o artista visual Zéh Palito, que conheceu por acaso no Rio de Janeiro: são os Cosmic Boys. Juntos, eles vêm realizando macromurais com um potente viés social. Em 2017, durante um tour pelo Oriente Médio, pintaram o maior painel urbano da Síria, com 270 metros quadrados, em Damasco. As passagens foram compradas via crowdfunding e a ação foi planejada com um artista sírio refugiado no Líbano que conheceram em um festival de arte em Dubai.

Os Cosmic Boys tiveram acesso a um campo de refugiados no vale do Bekaa, na fronteira sírio-libanesa, e, sabendo menos que o básico da língua árabe, ministraram oficinas práticas de grafite para crianças da região. Rimon garante que aprenderam mais do que ensinaram. Eles não esquecem o menino Azus, de 6 anos: “Quando chegamos, ele começou a atirar pedras em nós, depois vivia grudado no nosso pescoço. Impossível medir o impacto que ações como esta podem ter na vida de crianças de um país em guerra”, reflete.

Outra ação recente aconteceu na comunidade Alto Vera Cruz, na periferia de Belo Horizonte. A convite do coletivo CURA (Circuito Urbano de Arte), que vem transformando a paisagem de lugares socialmente vulneráveis, os Cosmic Boys criaram um macromural que envolveu a pintura de 40 casas durante 20 dias de trabalho. As dificuldades eram muitas. “A favela é um ser vivo e sua estrutura é bem orgânica. O chão não era reto, foi preciso montar andaimes em becos minúsculos, se esgueirar por vielas. Não tínhamos autorização de todos os moradores, sempre tinha alguém que não gostava de amarelo, vimos uma casa nova surgir ali enquanto pintávamos”, recorda Rimon.

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Para complicar, algumas casas ficavam separadas, dificultando o efeito desejado de obra única. Mesmo com estudos prévios e mapas fornecidos pela produção com a metragem dos espaços, estar aberto ao improviso foi fundamental. Além da dupla, a ação envolveu os próprios moradores da comunidade, criando elos que, segundo Rimon, fizeram tudo valer a pena.

Quando trabalha com Zéh Palito, defende a importância do esboço como diálogo. Mas, se grafita sozinho, Rimon prefere desenhar direto na parede. “Primeiro fico um tempo olhando o muro, tentando ouvir o que ele me diz, então começo a visualizar uma ideia e colocar a mão na massa. No início eu desenhava em cadernos e pretendia transferir igualzinho para o muro. Depois percebi que o desenho no caderno já era uma obra em si, não precisava repeti-la em outra escala. Muro é muro, papel é papel”, filosofa.

Nos últimos anos, trabalhando para grandes clientes, Rimon conquistou a liberdade de autofinanciar seus trabalhos sociais, na rua. “Cobro bem por alguns para fazer outros de graça, para quem eu acho que merece”, diz, numa lógica robinhoodiana. Para ele, reivindicar o espaço público e aproximar a arte de quem não pode ter acesso a ela é uma atitude fundamentalmente política. “Tirar as pessoas de sua rotina visual, nem que seja por 30 segundos, é algo revolucionário”, opina.

Mas o grafite também envolve ética e responsabilidade, porque “Se por um lado o artista quer ter a liberdade de pintar o que quiser, tem que lembrar que o espaço é de todos”. O grafiteiro, então, passa necessariamente por um processo de seleção natural nas ruas: se a arte não agradar, estará sujeita ao picho, ao vandalismo e até à interferência de colegas, que podem cobri-la com outro desenho. “Uma criança pode passar e colar um chiclete em cima. Requer desapego. É diferente de um espaço controlado como um museu. Na rua, sua melhor obra pode terminar em dois dias”, constata.

 

AFROTROPICALISMO POLÍTICO
Raspar a cabeça na infância e adolescência era um jeito de se proteger do racismo que diz ter sofrido em Curitiba. Mas o gesto recente de assumir a cabeleira negra trouxe empoderamento e novos rumos para sua produção, cujo divisor de águas foi a residência artística no Gâmbia, país que visitou duas vezes. A convite do projeto Wide Open Walls, Rimon se instalou num hotel flutuante na floresta Makasutu e de manhã cedo saía de barco para pintar em vilarejos nos arredores da capital Banjul.

Luan Banzai registrou a experiência em vídeo e conta que havia um rígido cronograma a ser seguido, mas Rimon não parecia preocupado. “Ele sabia que, para manter o espírito livre do grafite, devia infringir certas regras, dar espaço para as coisas acontecerem espontaneamente. Mesmo com tinta e horário limitados, parava para ouvir histórias, tomar chá na casa de alguém, pintar uma parede a mais”, lembra. Assim, Rimon descobriu que uma casa que iria grafitar era habitada por três gerações de mulheres, história que serviu de inspiração para o retrato feminino com o qual estampou sua fachada. “A riqueza do trabalho de Rimon vem também deste carisma. Não é apenas fruto de um plano executado, mas de um processo que valoriza as relações de afeto”, define o amigo.

Expressar seu africanismo latente e fazer frente ao racismo foram algumas das heranças da temporada em Gâmbia, de onde despachou o kora — harpa-alaúde africana de 21 cordas — que hoje repousa na sala de seu apartamento em Curitiba. Nesta mesma viagem, Rimon participou ainda de outra residência artística em Caldas da Rainha, a 100 quilômetros de Lisboa. “Essa triangulação Brasil-Portugal-África fez com que caíssem várias fichas do que é ser um artista brasileiro a partir destes contrastes e movimentos”, afirma.

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TRÂNSITO LIVRE
Desde 2005, quando fez sua primeira viagem internacional, para Buenos Aires, Rimon já visitou 27 países. Na bagagem despachada não faltam garrafas de tinta à base d’água e seu kit de pincéis e rolinho — menos spray, que é inflamável. Sente-se mais reconhecido em Curitiba depois de ter cruzado a fronteira do Rio Atuba, mas ainda acha impossível depender apenas do circuito local, que considera fechado e limitado. “Quando não tenho trabalho aqui, viajo, depois volto. Tenho a sorte de fazer um tipo de arte que dialoga com algo global.”

Cruzar fronteiras é movimento conhecido de Rimon. Além de transitar por novos territórios, não tem medo de explorar também outras expressões artísticas. Seu canal no SoundCloud traz alguns de seus experimentos sonoros. E se em 2011 ele ilustrava a capa de Tropical Splash, disco de estreia da banda Copacabana Club, em 2016 foi sua vez de debutar na música com o EP Caburé, lançado em parceria com o duo Nomad Magush. As três faixas têm composição e voz de Rimon, que ainda estrela o videoclipe de “Vendaval ou Arecales”, filmado entre dunas e coqueiros numa praia cearense. É música negra rica em poesia e sonoridades, do rap ao afrobeat tropical. “Vesti a melhor beca pra atravessar o rio”, canta o artista visual em cujas pinturas abundam os elementos da natureza.

Quando está em ação, pincel em riste, quase sempre há um som instrumental de fundo, espalhado na rua por alto-falantes. E assim vai desenhando pássaros quase humanos, cachos de banana cor de rosa, folhas de costela de adão em cores lisérgico-tupiniquins. “As pessoas rotulam muito. Por que um artista visual não pode fazer música? Sempre gostei de escrever, de cantar e mexer o corpo, as artes estão dentro uma da outra. Desmistificação é o lance, usar a tinta como se estivesse fazendo um som, usar o som como se estivesse pintando”, exemplifica. Com o coletivo Interlux, Rimon sente que havia um trânsito artístico mais livre e acredita que se pode chegar a resultados verdadeiramente originais a partir de misturas inusitadas, mas lamenta que a cena local seja tão segmentada e restrita. Enquanto isso, segue atravessando muitos e muitos rios.

No final de outubro de 2018, ganhou passagens de uma companhia aérea, com direito a acompanhante, para a República Dominicana. Levou a mãe. Aos 65 anos, seria a primeira vez que Carmelita dos Santos Guimarães sairia do Brasil, e também a primeira que pintaria com o filho. “Fizemos duas pinturas na praia Los Corales, em Punta Cana. Ele fez todo o desenho e eu ia preenchendo com as cores. Nos divertimos muito, Rimon é um grande companheiro”, orgulha-se. Os vídeos postados no Instagram mostram bem essa sinergia: mãe e filho no pôr do sol, os pés enfiados em águas caribenhas, o rosto de uma mulher surgindo numa parede metade verde, metade rosa.

De família religiosa — Rimon é um nome bíblico retirado do Antigo Testamento e do nome do meio de seu pai —, sempre foi guri de fé. Carmelita lembra quando o filho tinha 10 anos e queria muito um canarinho. “Eu dizia para ele orar a Deus, que na hora certa ele teria. Um dia chegou em casa com uma gaiola, dizendo: ‘É pro meu canarinho’. Pouco depois, com um pacote de ração: ‘É pro meu canarinho’. Por fim, numa tarde, Rimon estava sentado no pátio do condomínio onde morávamos quando um canarinho passou voando e pousou na sacada de um apartamento. A hora certa tinha chegado.”

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Mariana Sanchez é jornalista e tradutora. Colaborou com veículos como Piauí, Suplemento Pernambuco, Gazeta do Povo e Cândido.

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