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Crônica

18/09/2017

O milagre dos homens

Marcelo Mirisola

 

Sabato dá uma enquadrada em Borges. Vibrei, como se fosse gol do Palmeiras. O livro: Borges/Sabato: diálogos trata do encontro dos escritores depois de 20 anos de rompimento. O mediador, um jornalista deslumbrado, atrapalha um pouco quando resolve dar seus pitacos, mas nada que interfira no embate. De qualquer forma, recomendo ao leitor pular as observações do jornalista e ir direto para os diálogos/acerto de contas.

O nome Sabato ficou um bom tempo martelando na minha cabeça. Não é qualquer um — avaliei — que teria a manha de enquadrar Borges. Mas o tempo passou e, apesar de ter ficado impressionado com o estofo do “adversário” de Borges, não tive, num primeiro momento, o ímpeto de ler seus livros.

Até que encontrei O túnel num sebo da Praça Tiradentes, quase vizinho da Estudantina, lendária gafieira carioca. O fato por si só renderia uma crônica ou quiçá um conto fantástico, mas esse é outro assunto...

Ainda existem sebos de rua, e existem livros que iluminam o mundo. Li em dois dias. Quando se tem afinidade com o escritor a coisa flui, vai que vai. Cria-se uma intimidade automática, e o prazer de ler é redobrado pelo surgimento de uma espécie de amizade. Espécie não, amizade mesmo. De outro jeito, não acontece. Comigo não.

Uma coisa, porém, é ser amigo da obra. Outra, completamente diferente, é ser amigo do autor. Ler por obrigação é burrice. Ainda que o autor da obra seja seu amigo pessoal. A propósito, tenho um ótimo amigo que é escritor, mas não gosto dos livros que escreve, não descem.

Há dois ou três meses, a Folha de S. Paulo me procurou, e o último livro desse amigo constava do cardápio de resenhas oferecidas. Declinei. Mesmo assim, dei uma passada d’olhos e, como eu suspeitava, confirmou-se o respeito e a amizade que cultivamos há quase 20 anos. Bom dizer que ele também, graças a Deus, detesta as coisas que escrevo. 

Logo em seguida, resenhei para a mesma Folha o excelente O conto zero e outras histórias, de Sérgio Sant’anna. E combinei comigo mesmo que Sant’anna seria uma exceção diante dos ares pestilentos que a literatura brasileira contemporânea enseja. Nunca mais resenharia livros de autores nacionais “supostamente vivos” e ávidos por “amizade”, chancela e reconhecimento — embora nada impeça que surja um novo Graciliano Ramos e eu mude radicalmente de opinião, veremos.

Gostaria de ressaltar que o fato de a obra “não descer” é algo puramente pessoal, tanto faz se é de amigo ou desafeto, morto ou vivo. Nada tem a ver com a suposta qualidade, só não desce. E, felizmente, literatura não é prova de 100 metros rasos. O que quero dizer é que a subjetividade é, ao mesmo tempo, o velocista e o juiz mais implacável e parcial de todos. Absolve e condena o jegue e o gênio com a mesma arbitrariedade e destempero, e até hoje — bom dizer — não inventaram nada mais eficiente, deficiente e democrático.

kitagawa
   Ilustração: André Kitagawa

 

Nossas escolhas, portanto, são arbitrárias e pessoais — e, eventualmente, podem ficar restritas a uma singela questão de empatia ou espraiar-se em interesses nebulosos e paixões incontroláveis. Afinal, caminhamos pela vida ao lado daqueles que compartilham afinidades conosco, por que com a literatura seria diferente?

Além disso, tem o agravante de que vivemos em sociedade: compramos, cambiamos, às vezes auferimos lucros e quase sempre contabilizamos prejuízos colossais, por cima e por baixo dos panos, o tempo todo. Reconheço a grandeza de Clarice e Joyce, mas não tenho afinidade alguma com eles.

Não ficaria à vontade tomando um porre com essas figuras, e jamais compraria um carro usado por Saramago. Dificilmente seriam meus amigos. Literatura é o amigo que o pega pelo braço, e lhe conta uma história que interessa a ambos.

Sabato, por exemplo — e apesar do antagonismo que mantinha com Borges—, desfruta de minha amizade. Borges também é um amigo, e a mesma coisa vale para Cortázar, que não era engolido por Borges, que por sua vez não o engolia.

Acredito que ambos tinham motivos mais do que suficientes para não se bicar: de um lado o homem condecorado por Pinochet e, do outro, o entusiasta de Guevara — que no auge de uma paixão descontrolada chegou a lhe dedicar um poema belíssimo cujo título é “Yo tuve um hermano”.

Imaginem se Borges e Cortázar vivessem em nossa época e frequentassem as redes sociais. O fato de o primeiro ser um coxinha autor de O Aleph e o outro um mortadela que pariu Rayuela talvez, diante das rusgas e demandas pessoais, soasse irrelevante para as respectivas torcidas uniformizadas, e para eles mesmos.

É neste ponto, exatamente neste ponto onde se cruzam os supracitados interesses nebulosos, e as paixões incontroláveis, que tenho algo a dizer.

É precisamente neste lugar que a boa literatura, apesar de todos os defeitos, incontinências e misérias de quem a produz, prevalece. Como e por quê? Não sei, não entendo. Trata-se de algo que vai além da razão e da lógica, e dos interesses e das paixões que movem a razão e a lógica, algo que extrapola quaisquer explicações e conveniências humanas. Falar em paradoxo é café pequeno. Somente a esfera sobrenatural poderia dar conta de explicar o resultado desta intersecção.

Acredito em milagres.

Sim, isso mesmo, milagres. Que acontecem até mesmo e sobretudo para quem não acredita em nada. O ceticismo e a aparição de Isaac Asimov, por exemplo, seria um milagre tão fulgurante para os cínicos e incrédulos como foi a aparição da Virgem para os três pastorinhos de Fátima. O encontro e respectivo acerto de contas entre Borges e Sabato é resultado visível e palpável de um milagre. Em seguida, outro milagre confirmado: O túnel de Sabato encontrado num sebo de rua da praça Tiradentes, vizinho da Estudantina.

Acredito, portanto, que literatura é o mais imerecido e improvável, por isso mesmo o mais surpreendente e maravilhoso, dos milagres. Ocorre no bojo das maiores fraudes e torpezas humanas. A literatura é o exemplo do milagre que pode ser atribuído aos homens, e auferido pelos homens. Acredite quem quiser. Ou leiam os autores citados acima que vai dar na mesma.

 

Marcelo Mirisola é escritor. Tem mais de 15 livros publicados, entre eles Bangalô, Joana a contragosto, Proibidão, Hosana na sarjeta e A vida não tem cura.

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